Após séculos de existência, o espartilho, também chamado corset, volta à cena. Hoje, famosas vestidas com um exemplar glamouroso desfilam na televisão, aparecem em ensaios de moda, shows e festas badaladas. Mas, deixando de lado o apelo fashion, muitas mulheres veem aí a chance de praticar "tight lacing" - traduzindo, "laço apertado" - cuja finalidade é perder medidas.
Essa prática remete a séculos passados e pode trazer muitos riscos à saúde. Quem recorre ao "tight lacing" acredita que, ao usar a peça apertada sobre o corpo, poderá manter a postura ereta e terá mais êxito nas dietas, pois, com o estômago pressionado, não conseguirá comer muito.
"Dá para perder de 6 a 10 centímetros de cintura ao usar o corset num período mínimo de 8 horas diárias, durante 4 a 6 meses", garante a paulistana Sher, de 28 anos, dona da marca Madame Sher, a queridinha de muitas famosas, como Ivete Sangalo e Fernanda Young. "Isso é possível porque a peça faz pressão nas costelas flutuantes." Essas costelas são os dois últimos pares e as únicas que não se unem na frente, como as demais. Por ficarem "abertas", são denominadas flutuantes.
Confeccionado em várias camadas de tecido resistente, o espartilho recebe reforços em alumínio ou aço inoxidável embutido (conhecidos por "barbatanas") para pressionar áreas estratégicas, quando a amarração das costas é puxada e apertada. Para modificar o formato natural da região, é preciso usá-lo diariamente e por longos períodos.
Médicos, porém, desaprovam esse tipo de prática. O cirurgião vascular da Beneficência Portuguesa, Fábio Haddad, alerta para os riscos da pressão excessiva no abdome. "Isso reflete nos órgãos internos e, consequentemente, no aumento da pressão venosa, ou seja, das veias centrais, precipitando o aparecimento de varizes e inchaço nas pernas. Em casos extremos, isso pode causar uma trombose." E mais: a pressão interna eleva o diafragma, modificando a dinâmica respiratória. Isso pode levar à atelectasia, resultado da diminuição da ventilação pulmonar, o que pode provocar acúmulo de secreções e até uma infecção.
De acordo com o médico ortopedista Maurício de Moraes, do Instituto de Ortopedia e Traumatologia de São Paulo (IOT-SP), tudo o que comprime a região das costas e da paravertebral (ao lado das vértebras) limita os movimentos. Isso faz com que os músculos sejam pouco requisitados e, consequentemente, percam a força. "Sem tônus muscular, a coluna perde a estabilidade, o que pode provocar problemas de postura e dificuldade para permanecer em pé por muito tempo", adverte.
Com relação à pressão sofrida nas costelas flutuantes, a fim de moldá-las, Moraes explica que realmente não são fáceis de quebrar por estarem presas apenas na parte de trás. Mas elas são assim justamente para não comprimirem o abdome e para protegerem os órgãos vitais. "Nada substitui a atividade física", conclui o ortopedista. "O que deixa a postura ereta e a cintura definida é a musculatura fortalecida."

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